quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Último Hagakure (não juro)

Na China havia um homem que gostava de imagens de dragões, e todas as suas roupas e mobílias era decoradas com eles. O deus Dragão tomou conhecimento dessa grande afeição e, um dia, um dragão de verdade apareceu na janela do homem. Dizem que ele morreu de medo. Ele era provavelmente um homem que gostava de dizer belas palavras, mas não agia de acordo com elas ao enfrentar a realidade.

Criança mimada

Tô no meu blog
Faço o que eu quiser!

Peso

Brindaram a felicidade do possível futuro.
Não havia peso a se carregar.
Sentaram-se todos ao redor da mesa e discutiam e gritavam e riam e cantavam e colocavam a música mais alto, pra poder aproveitar. Amigos, casuais ou não, mas ne tornavam saudavelmente necessários naquele momento, sem ninguém mandar um no outro, sem ninguém tentando desesperadamente preencher o vazio da existência.
A dois quilômetros e meio de casa fui convocado a voltar, a consciência pesando - "nós podemos te levar, se você quiser" me disseram sorrindo. Mas eu precisava voltar sozinho, foi assim que me construí.
Tentei salvar o mundo quando deveria estar tentando dominá-lo, tentei segurar cada ponta, cada fio, cada mão que me afogava e me fazia de pedra. Achei que um sonho há muito esquecido poderia, enfim, se tornar realidade.
Achei.

Desaprendi a dizer "não" quando se deve, por medo de ser visto como monstro. Alguns erros não estão em mim e não são meus, e nada posso fazer pra consertá-los.

Cheiro, pele, desejo

Odeio com toda a força
O amor bobo, construído, calmo e duradouro.

Me forcei a acreditar
Que o melhor desejo puro vem com o amor
Que não há amarras na confiança
Que a paixão é vazia quando não passa de luz e interruptor

Cansei de dar carinho
Esperando receber desejo, vida, verdade!
Buscando resolver os problemas da humanidade!
Acreditando no "paz e amor"!

Cansei
Da vida incompleta - não se vive só de amor.

Há!

Não é ninguém não é ninguém não é ninguém
Quero ser melhor melhor melhor, quero ser quero ser!
Destruir, apagar, reconstruir, montar em cima, subir subir
É o que eu queria ser, mas não é o que eu sou, quero conquistar, destruir destruir
Ah, conseguir manter a distância possível pra gozar sem me sujar, sem suar!
Um sonho impossível aconteceu, foi sonhado e virou realidade
O cheiro, a pele, o ódio e o asco!! Um sonho pensado mas não planejado
Não queira chorar por um sonho realizado, por favor - "não vou dizer que não foi bom tudo o que aconteceu"

Fim dos sonhos, fim dos desejos, fim do que pode ter sentido na vida.
Domesticar-se, a vida após a morte
Amar aquele que primeiro me proteger, depois vou me procurar.


Amor

Um duelo
Até a morte
Sem perdedores

Menos sonho

Me dêem um sonho
Me deram um martelo
Martelei até o último osso
Não preciso mais do sonho.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Gosto de sujeira boa

Roland Barthes, Walter Benjamin e (sim, maldito!) Adorno.
Me identifico com vocês quando falam da imagem, da sociedade da imagem, do fetiche.

Aprendi com a vida, com os mais velhos, com livros e filmes que a beleza é um momentum, algo passageiro, um tanto ilusório e incompleto. Digo isso porque sou um feio enrustido e recalcado e também porque me cansei da beleza higiênica-sonho-de-consumo.
O que me chamou a atenção e me fez grudar na tela quando assisti "Os Infiltrados" foi a injustiça com que são tratadas as pessoas que, por trás de uma máscara social imbecil, estão exatamente no mesmo patamar natural. O personagem do Matt Damon é o bonitinho do filme, ele é o garoto bom, com o cabelo penteado, vindo de família boa, estudou e se formou com honras, é um exemplo de sorriso no rosto e terno bem passado, subiu na vida como um campeão e pode conseguir todas as mulheres que desejar, afinal, ele é um lindo campeão. O personagem do DiCaprio, veio de uma família desestruturada, perde o controle facilmente por ser mais sincero aos seus sentimentos e seu senso de justiça, estudou pouco, não é tão arrumadinho e limpinho quanto o outro, não tem amigos, garotas, tampouco reconhecimento do seu trabalho.
O filme se desenrola mostrando, num plano bem inferior ao plano principal do filme, o quanto DiCarpio sofre por ser um ninguém na sociedade em que vive (a sociedade tanto da polícia quanto da máfia), e eu acrescento aqui que, em um paralelo com o personagem de Matt Damon, o personagem também sofre por não ser "bonito", bem arrumado e sorridente.

Pois bem, não é de hoje que é difícil descobrir quem realmente é bonito e quem se faz de fofo pra conseguir o que quer. Contudo, na nossa sociedade da imediatez, da imagem e da multipossibilidade, não há tempo pra se construir coisas sólidas e, dessa forma, com certeza a primeira impressão é a que vale. Me lembro que me disseram: "se você colocar uma corzinha aí, com certeza vai chamar mais a atenção", e o fim daquela "corzinha" não era significar absolutamente nada, era só chamar a atenção mesmo.
Não é possível mesmo entender completamente como as pessoas caem na mentira da imagem bonitinha, do garoto cabelinho arrumado, moda da vez ou contra-moda da vez (porque se a pessoa não é a moda da vez ou a contra-moda da vez ela não existe e fica desapercebida mesmo no meio social), da garota frágil precisando de ajuda, criança grande que jamais vai dar um passo sozinha em direção a uma morte mais honrosa. Como pode (mesmo, como pode?) um bolo de aniversário a uma pessoa que não merece? Só para manter o social, pra não ficar sendo o estraga prazer da vez? Mesmo que essa pessoa tenha lhe feito mal? "Acho que foi um mau entendido" - isso mesmo, vamos recalcar e esperar esquecer, baixar a poeira, aprendemos que o conflito é ruim e manda pro inferno quem fica bravo com outra pessoa.
Saio de casa pra conhecer o mundo, é só assim que vou conseguir alguma coisa de verdade. Quanto eu era moleque a gente ia dormir cedo porque não tinha mais nada pra fazer e acordávamos cedo pra ir pra escola, e de tarde tinha um monte de atividades, desde estudar até jogar bola. Hoje a molecada, quando não volta pra casa pra satisfazer seu desejo narcisista de internet, rede social, jogos online, faz isso direto dum celular em todo lugar. "O que é uma pedra?", entra no Google, escreve PEDRA e lê o que está escrito. Olha, são pelo menos dois mil anos de história da humanidade e, com certeza, você não estaria aqui lendo isso se seus antepassados fossem uns bundões que, quando querem saber o que é uma PEDRA, ficam estudando o simulacro de uma pedra ao invés duma pedra de verdade, cheia de terra e micróbio.

Quanto a mim, cronologicamente, percebi que não seria sendo o mais nerd e estudioso de colégio que eu me tornaria uma pessoa boa (estudar pra tirar nota e pra mostrar que consegue decorar mais é coisa pra robô). Depois vi que as roupas super legais e super caras e que mudam toda semana são uma bobagem que a rede Globo e a revista Caras coloca na cabeça das pessoas-zumbi, por isso resolvi usar roupas e acessórios no meu corpo que tivessem alguma mensagem PARA MIM, e que apenas as pessoas realmente desprendidas da convenções "Globais" conseguiriam entender. Depois fui vendo que uma barba escondia o meu rosto, escondia o que eu era de verdade, e por isso passei a me barbear sempre - hoje não acredito mais nisso, apesar de saber que a barba esconde o rosto e cria uma personalidade, ela é uma coisa natural do meu corpo e eu tenho que lidar com isso. Mais tarde vi que ser forte de academia também não presta pra nada, porque apesar de conseguir levantar pesos e pesos dentro das 4 paredes do lugar, fora a gente continua o mesmo bosta de sempre, além do que, carregando pedras por aí não somente a gente consegue a mesma força como ainda ganha uma corzinha de sol e uma mão realmente caleijada. Apesar de curtir muito o Rock e toda a ideologia que ele passa não sinto necessidade de andar por aí com cabelos rebeldes, camisetas das bandas, atitude rock-grunge. Essa ideologia está na minha cabeça, nos meus atos, não preciso de acessórios pra me dar mais energia, minha vida não é WOW, não vou ganhar +2 de Rock se usar uma camiseta xadrex, +4 de atitude se andar com um All Star surrado. Uso isso e ando com isso se eu quiser e me for confortável, caso contrário, foda-se, é só mercadoria. Tanto o é que eu andaria SIM por aí com camisetas que eu fizesse com letras do Doors, Black Sabbat, Beatles, etc. Olha, por um tempo cheva até a pensar assim: "se é preciso tirar uma foto pra provar tal coisa, então essa coisa é perda de tempo", quando via aqueles álbuns de foto do Orkut com um milhão de fotinhas iguais com churrascos, festas, roupas, etc etc etc.

Enfim, tem muita gente filadaputa por aí, casquinha bonita por fora e lazarento no coração, que está se dando bem na vida, ganhando coisas que não merecem, fazendo as coisas "sem pensar" e esperando que o resto da moçada esqueça o que foi feito. Pois bem, a moçada imbecil vai mesmo esquecer e continuar levando a vida desejando comprar seja o que for ou fazer a viagenzinha pra Paris pra tirar foto, mas saibam, vcs filhas da puta que sabem do que tô falando e se identificam com isso, que o pessoal mais velho nasceu num mundo diferente, com um pouco mais de honra inclusive na hora de fazer cagada.

Recomendo, além do filme "Os Infiltrados", duas leituras bem fáceis: o lirvo do "Hagakure" e "Perto do Coração Selvagem" da Clarice Lispector. Muito do que de pensa ser sujeira não é, pouco do que se pensa sobre si mesmo faz sentido.

Elogios

Elogios são congratulações momentâneas de qualquer coisa.
Basta que exista para que seja passível de elogio.
Habilidades, dotes, qualidades e capacidades das pessoas devem ser elogiados com muita sabedoria, pois o elogio pode desvirtuar o objeto o qual se elogia.
Pessoas de cabeça fraca tendem a ser afetadas além do significado ele mesmo de um certo elogio.

Os grandes homens não carregam bandeiras com suas qualidades, eles usam aquilo que têm ao invés de expor - uma medalha no peito é metal cunhado.

Dúvidas

Um espinha no meio das costas incomoda, dói, sangra e é tão inacessível aos olhos quanto uma dúvida pungente.
Pior do que passar a noite em claro, é não ter pensado em nada, nem ter feito algo de útil durante esse tempo todo.
Lá fora sou eu
Rindo
Do que olha de dentro

Haiku - Bom pra mim e bom pra tu

Uma
Palavra
Vontade

Haiku - Bom pra mim e bom pra tu

Eu quero
Eu espero
Eu queria

Haiku - Bom pra mim e bom pra tu

O último suspiro
Sangue sobre a mesa
Picanha, maminha e alcatra

Haiku - Bom pra mim e bom pra tu

No aquário um temaki
Nada despreocupado
Como se houvesse o amanhã

domingo, 9 de janeiro de 2011

Hagakure (mais um)

Pessoas inteligentes usarão essa inteligência para vestir tanto coisas verdadeiras quanto falsas, e tentarão lhe empurrar o que querem com argumentos criativos. Isso é um dos danos que a inteligência pode causar.
Nada que fizer terá efeito se você não se valer da verdade.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Gente estranha

Alguém lhe dirá que é paranóia
Sentir que o jogo está perdido
Mas você responde: "paranóico
É quem descobriu ser perseguido".
Gente é maluca, gente tenta ser feliz, gente tenta encontrar algo que preste na vida, gente se sente ameaçado pela morte só de saber que existe morte, gente perde a cabeça pra continuar vivo, gente perde o sossego antes de perder tudo, gente não tem nada a perder, gente acha que não é mais gente, gente acha que é mais gente que a gente, gente perde a noção de que gente é mais de um e além de nós mesmos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

De lá de onde venho, também veio aquele senhorzinho alí, e aquela moça bonita Ah, ela já foi embora, também aquele casal com as crianças, alguns daqueles garotos que estiveram por aqui, as garotas que vieram logo em seguida, aquele homem alto, logo alí, conversando com o de branco, o de branco não sei de onde veio, veio também aqueles quatro jogando algo muito comun lá de onde eu venho, e tem também todo o pessoal que você ainda vai conhecer porque vem muita gente de onde eu venho pra cá. Ficamos assim então, de onde venho vieram:

Aquele senhorzinho alí
A moça bontia que foi embora bem agora
O casal com as crianças
Alguns, nem todos, daqueles garotos que estiveram aqui
As garotas que vieram logo depois dos garotos
O homem alto alí que agora está conversando de pé com o de branco
Os quatro jogando, eles nem perceberam a gente aqui.

E amanhã volto pra lá.

Poizé

Mandava com o dedo levantado que todos fossem tomar naquele lugar e mordia o lábio inferior fazendo careta com os olhos e estava cheio de raiva daquelas que muita gente tem quando outras muitas pessoas estão errando feio e precisam mesmo que alguém lhes mostre que as coisas não são assim tão difíceis quanto elas fazem que sejam. Pois não era ódio mas muita vontade de mudança pra melhor e dizem que quando se quer uma mudança há aí um egoísmo muito grande porque as coisas já são como estão e alguém simplesmente acha que elas não deveriam ser como estão então é quando tem gente que vem com ódio tentando destruir o que existe mas nesse caso ela não tinha ódio e só queria saber de mudar algumas coisas para melhor e não era vontade alguma de destruir pelo menos não fisicamente porque disseram também que mudar é destruir porque as coisas já estavam lá e alguém que muda está destruindo o que era. Então foi por isso que ficou assim com um dedo do meio de cada mão levantado e mordendo o lábio e fazendo careta e no fundo querendo que todo mundo parasse de ser tão tão tão tão... tão... tão "todo mundo" e que pelo menos alguém um pessoinha só conseguisse entender o que raios era aquela manifestação caricatural e raivosa.

Cinco anos depois e ninguém sacou dez anos depois e ninguém sacou quinze anos depois e ninguém mais lembrava trinta e cinco anos se passaram para que alguém abrisse um livro com uma foto estranha de alguém mostrando os dedos do meio e fazendo careta de ódio para poder receber o prêmio da academia pelo melhor estudo do comportamento humano sob os efeitos de shampoo de cabelo para cabelos cacheados.

Ainda outro lugar

- É por alí.
- Onde?
- Alí.
- Não vou por alí.
- É bem por alí.

Seguiu e foi seguindo o caminho indicado bem abaixo do portão que parecia não dar em lugar algum. Chegou e parou para tentar ver como estavam as coisas e enquanto olhava uma coisa as outras mudavam mas algumas demoravam um pouco mais para mudar e outras mudavam mais rapidamente então era o mesmo lugar com a paisagem mutável e mutante.

Eu quero eu quero eu quero eu quero
Eu queria... eu queria... eu queria...

Foi embora por um outro caminho que encontrou perguntando aos locais e com certeza chegou a outro lugar nem tanto diferente.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Easy go, easy come

Quando eu ficar velho, quero que me deixem morrer.
É uma coisa que acontece mesmo, não tem como evitar.
Às vezes, acho que é até egoísmo da nossa parte manter vivas pessoas que não tem mesmo mais jeito de viver decentemente. Elas querem voltar pra suas casas, querem saber onde estão maridos e esposas, porque é que tomam tantos remédios, e assim por diante.
E a gente lá, como se estivesse falando com uma criança - hoje em dia tá todo mundo virando criança de novo: "toma só mais esse aqui. Isso, agora esse aqui. Não quer a sopa? Não queeeer? Mas toma só mais essa colherada e mais esse remédio".

sábado, 1 de janeiro de 2011

Muito estranho mesmo (pra quem não consegue ver um palmo além do próprio nariz):

Tem gente que se esforça para ficar sozinho, ser solitário.

Novo ano

Ano novo pra mim é o dia do meu aniversário. É nesse dia que paro e reflito sobre o ano anterior, as conquistas, as derrotas, os cotidianos e tudo o mais, apesar de não pular as 7 ondinhas em pleno Outubro.
Diria que 2010 foi bem mais uma porcaria do que uma coisa extraordinária como foi 2006 pra mim. Bom, nem sempre o ano que vem tem que ser melhor que o anterior, mas esse foi especial: foi o ano de se ferrar com as expectativas ("que sempre nos fodem pór trás").
Foi o ano em que o emprego de fato acenou a mão pra mim e depois fui descobrir que era para a pessoa do meu lado na rua (!), que meu relacionamento com as pessoas foi realmente difícil a ponto de pensar em acabar de vez com essa história de "Mura", que as coisas que aprendi fizeram mais e mais sentido em mostrar que a vida mesmo não faz sentido algum.
Quero passar longe de ser um chorão e um niilista desiludido com a vida, mas o meu 2010 deixou a desejar mesmo.
Não quero esperar muita coisa de 2011, justamente pra não ficar preso a expectativas e a obrigação de faze-las acontecer. Imagine um homem que está assistindo a sombras em uma caverna e de uma hora pra outra sai desse lugar e dá de cara com um sol do meio dia... fiquei cegado com o tanto que a vida não é nada, não passa daquilo que nós mesmos inventamos sobre ela. E inventamos o tempo todo pra poder dar algum sentido artificial a ela, alguma coisa que nos deixe mais conformados com a já artificialidade da vida cotidiana, do homem bom e justo, pai de família, diplomata.
Não me lembro de ninguém, em 2010 que vive realmente. Todos estava só tentando sobreviver - e com isso sonhamos com terras onde jorram leite e mel do meio das pedras.