quinta-feira, 28 de maio de 2009

Música

Há um tempo tive uma vontade muito grande de sair tocando música por aí. A intenção, um tanto infantil, era animar as pessoas por aí, com músicas que elas gostassem, e também com algumas que mostrassem o mundo pra elas. Quando não estou atento, fico deslumbrado com as letras e ritmos das músicas da década de 60 e 70, de vários países diferentes, pois todas falam de liberdade, e de alguma coisa a mais do ser humano que o completa de verdade, ou pelo menos passam essa idéia.

Mas quando resolvo tocar essas mesmas músicas hoje, me lembro que quase tudo é mercadoria, e algumas pessoas não percebem isso, e resolvem ouvir música sem motivo, só pra completar algum espaço no vazio do dia-a-dia, a música funcional. E, se por acaso eu chegar a tocar essas músicas por aqui é bem provável que eu faça o papel do Ipod de reproduzir som para ninguém prestar atenção.

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Quando escrevo isso, tento ao máximo não transformar uma tese em algo particular e pequeno. Esse texto pode muito bem ser lido como se eu estivesse lamentando um fato particular, que não afeta mais ninguém além de mim. Proque, no fundo, o problema desse texto pode ser o fato de eu não conseguir me adaptar aos Ipod. Por outro lado, pode parecer um texto depressivo, no qual houve um passado em que os Ipod não domnavam a vida das pessoas, e eu, com esse texto, pretendo resgatar esse passado exatamente como ele foi. Dessa forma, escrever um texto contando exatamente o que quero contar é uma terefa quase impossível, pois a cada período tenho que adicionar outro explicativo.

E o texto fica imenso.

E ninguém vai querer ler.

Eu mesmo não vou querer escrever tanto assim.

E o que acabei de escrever pode ser lido da mesma forma como podem ser lidos o texto do início do post.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Dos blogs

Blog é um lance pessoal. Mas me parece ser um lance pessoal para ser visto por todos ou por alguns seletos. Caso se queira fazer algo pessoal secreto, escreve-se um diário, com cadeado e tudo. No blog, o cadeado está aberto pra incitar a curiosidade.

O gostoso dos blogs também é o link que a internet permite. Dá pra passear um tempão nos blogs do pessoal.

Mesmo assim, não entendo porque ninguém visita esse blog aqui. Pelo menos, se visitam, não deixam pistas.

O computador é o único coitado que lê tudo que escrevo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mais leituras

Ainda no livro do Hagakure:

Na geração do senhor Katsushige havia vassalos que, independentemente de seu posto, eram requisitados para trabalhar para o mestre desde pequenos. Certa vez, quando Shiba Kizaemon fazia esse serviço, o mestre estava cortando suas unhas e disse:

- Jogue isto fora.

Kizaemon pegou as unhas, mas não saiu do lugar, e o mestre perguntou:

- Qual é o problemas?

- Está faltando uma - respondeu Kizaemon.

- Aqui está - disse o mestre, e entregou a unha que havia escondido.

Negação do acaso

Enquanto pensava

na frase perfeita para o desfecho,

Dona Maria lavou toda a louça.

sábado, 9 de maio de 2009

"Mirrors are more fun than television"

Naquela ocasião ele disse o seguinte:

- Sabe, hoje em dia a moçada só está mais higiênica. Há um tempo atrás, quem queria fazer alguma coisa pra poder se sentir vivo ia procurar alguma droga, essas da psicodelia. Pra ver algumas coisas malucas, ouvir melhor o som de alguém ou, pelo menos, ter alguma sensação de liberdade. Mas daí um cara chegou pra mim e disse 'meu, eu sou quase um Dorian Gray ao contrário'. Ele parecia que tinha uns 60 anos, ma não tinha nem chegado nos 40. Hoje a molecada é bem mais higiênica. Até pra fazer um som as coisas tem que estar perfeitas, tudo limpinho. E você, não usa droga não, né?

- Só experimentei. Mas não é que faz mal, é que é foda ficar guardando dinheiro pra gastar com isso, tá ligado? Já gasto pra caralho com as brejas, já tá bom. Quer dizer, não tá, mas tá bom.

- Você trabalha?

- Ainda não. Eu tava muito querendo arranjar um trampo sério, sabe?

- Tá tão foda assim?

- Tá. Eu queria arranjar uma grana pra poder comprar um PC novo e uns jogos originais. "Fallout 3" é muito bom.

- Computador? Orra, porque você não vai viajar, fazer alguma coisa?

- É que no jogo dá pra fazer o que você quiser, meu. Dá pra dar uns tiros, montar seu carinha, evoluir e tudo. Tem um porre de final diferente, os carinhas reagem diferente. Se eu for viajar, meu, tem que ser corrido pra poder voltar e trabalhar.

Sempre conversavam sobre muitas coisas.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sonhos

Hoje tive um sonho bem estranho.

Morava na minha antiga casa e, por algum motivo, o céu tinha uma faixa mais azul-escura que o azul claro da tarde. Essa faixa estranha estava acabando com tudo!

Me lembro (quando a gente acorda é muito normal esquecer tudo...) que tudo o que passava por aquela faixa azul-escura dava problema. Me lembro de ter visto um avião perder o controle, depois um navio de ponta cabeça flutuando pelo céu, um satélite caiu no telhado da vizinha, e por aí as coisas vão...

E era muito angustiante que minha mãe não ligava pra nada! Eu ficava mostrando as provas de que algo estava errado, mas ela não estava nem aí.

Num certo momento o céu foi ficando vermelho e começou a cair meteoros e tal. Nem assim ela deu atenção.

Eu acordei, morrendo de sono. E o sonho foi tão interessante e empolgante que eu resolvi dormir e sonhar tudo de novo.

E consegui! Adiconando a isso o fato de que o sonho ganhou uma continuação na qual eu estava subordinado à uma máfia de japoneses que estavam tentando roubar não lembro o que de uma mina de não sei o que lá.

Mas o legal é que esses pesadelos foram bem emocionantes.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Reverberação

Quando falo voltado pra parede, bem perto dela, ouço instantaneamente e com muita clareza a minha própria voz.

Mas não gosto de falar virado pra parede. Ninguém gosta do som da própria voz.

E mais, quando me viro pra parede é que eu me lembro que não tenho nada pra falar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Sorte de hoje: Estude como se você fosse viver para sempre. Viva como se você fosse morrer amanhã

Certo, odeio essas mensagens de auto-ajuda imbecis que o Orkut adora colocar todo dia. Mas ao invés de só ficar reclamando, vou mostrar o porque de tanto ódio à essa idiotice de auto-ajuda como um todo.

De acordo com a frase, devo estudar como se eu fosse viver pra sempre, ou seja, eu não devo me dedicar muito aos estudos justamente porque terei a eternidade toda pra fazer isso aos poucos. Os deuses no Olimpo eram bem assim, algumas vezes até os homens ou os Titãs conseguiam passar a perna neles. Os mortais têm muito mais necessidade de conhecimento do mundo, senão, é claro, eles morrem. Os deuses, imortais, são mais sussa. Mesmo que eles façam cagadas não existe porque ter medo, ele não vão morrer. Portanto, de acordo com o Orkut, não se dedique aos estudos, coloque na sua cabeça que vc é imortal e vai viver pra sempre, e deixe de fazer o que tem que fazer.

Pois bem, viva como se fosse morrer amanhã, ou seja, estude TUDO o que puder hoje e AGORA. Seguindo a lógica da frase, dos estudo, se você vai morrer amanhã então deve estudar tudo nesse exato momento. É um paradoxo tão grande e imbecil (imbecil porque isso não foi criado com a intenção de ser esse paradoxo) que torna qualquer movimento em qualquer direção impossível.

E isso se repete todos os dias nas auto-ajudas da vida. Isso porque nem vou comentar quando o Orkut resove fazer piadinhas e escrever que o cara que escreve a sorte do dia está doente, ou saiu ou sei lá o que. Puta tentativa fajuta de humanizar o Orkut.

sábado, 18 de abril de 2009

Mais pílulas

Ainda no livro Hagakure:

De acordo com o que disse o monge budista Kaion, a pessoa se torna cada vez mais orgulhosa se ganha um pouco de esclarecimento, porque imagina conhecer seus próprios limites e pontos fracos. No entanto, é muito difícil conhecer de verdade nossos limites e pontos fracos.

Sobre a palavra, parte I

No livro do Hagakure está escrito assim:

A essência da fala está em não falar nada. Se você acha que pode resolver algo sem falar, faça-o sem dizer uma só palavra. Se houver algo que não pode ser solucionado sem o uso da fala, devem ser ditas algumas palavras, de forma concisa, mas compreensível.

Abrir a boca indiscriminadamente traz vergonha, e existem muitas ocasiões em que as pessoas darão as costas a pessoas que falam demais.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Sem título

Num movimento de implosão quase estúpida tenho tentado destruir tudo o que me aparece pela frente. A sensação de que quase nada aconteceu nos dez últimos anos me faz pensar no quanto não se pode mesmo mudar quando me apoio nos velhos moldes que me apresentaram. Tenho a impressãoque até a flor feia que encontro na rua já foi pisoteada pelos bondes, carros e pedestres. Dez anos ficaram para trás e quase não me lembro de nada que não fosse uma tentativa inocente, imbecíl, de tentar mudar as coisas, colocar mais animação na vida: "Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?". Por favor, coloque mais música, aumente o volume, porque o silêncio é como um espelho que aumenta minha imagem e me expõe de forma grotesca. Não sou sequer mau e com a alma corrompida, ruim por natureza, matador de formigas com os dedos; sou a covardia de quem se entrega à morte sem nem ao menos uma partida de xadrez.

sexta-feira, 27 de março de 2009

The Chaminé

Pensando em "The Wall" do Pink Floyd e no "O Abismo" do Baudelaire acredito que eu deva ter construído, na realidade, ao meu redor, uma grande chaminé.

A chaminé é um grande problema, quando você a constrói ao seu redor. Porque é como uma parede E um abismo ao mesmo tempo. Quando se está lá no fundo da chaminé não é possível quebrar o muro, pois isso vai fazer com que a chaminé caia inteirinha na tua cabeça! Logo, a solução é escalar a tal chaminé, se você quiser sair de lá.

Vamos ser sinceros, viver no fundo de uma chaminé é horrível, e por isso a gente quer sair de lá. Ou "daqui".

Pois então, falando em escalar a chaminé, me lembro daquela menina de "O Chamado". E falando em contruir a própria prisão me lembro da música "Gotta knock a little harder", da Yoko Kanno para o filme de animação "Cowboy Bebop".

terça-feira, 17 de março de 2009

A loucura das ruas

Num dia desses, voltando para casa, estava passando perto de uma farmácia. Um dos carros que estavam parados no estacionamento acendeu as luzes trazeiras, bom, com certeza ele estava de partida. Logo já fui diminuindo o passo assim que vi que ao lado do carro estava uma velhinha, provavelmente esperando o carro sair do aperto do estacionamento para que ela pudesse subir no carro confortavelmente.

Pois não, assim que cheguei mais perto, e o carro já estava saindo, a velhinha levantou um dos braços na direção do carro, para que ele parasse e, com a outra mão, fazia sinal para que eu passasse por detrás do carro. Exatamente como um manobrista faria. Aquela mulher, portanto, era uma manobrista, melhor, uma auto-manobrista já que ela era uma senhora de rua que com certeza não foi contratada para estar alí.

Então passei por detrás do carro, com o passo apertado pois a motorista do carro deveria estar muito brava, assim que a velha levantou a mão a motorista teve que frear bruscamente. E agradeci a velha. Ela nem ouviu pois agora seus movimentos eram em favor da passagem do carro. Frenéticos.

Aquela velha era uma louquinha. Mas somos todos loucos, é o que pensei pelo resto do caminho.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pink e o pecado

São Tomás de Aquino definiu muito bem o que seria um dos pecados capitais, a preguiça. Para ele a preguiça não é a falta de vontade de fazer as coisas, mas algo muito mais interessante. Preguiça é deixar de lado as obrigações. Ele não está falando de um mundo do trabalho moderno, modernindade já sedimentada, ele está falando das obrigações enquanto virtudes, responsabilidades; estas, caminho para a ascenção do homem.

Pois bem, a preguiça, portanto, é o grande mal das pessoas ao meu redor, das que ouço falar e de mim mesmo. Todos não querem cumprir com as suas responsabilidades pois mais ou menos nem sabemos mais quais são. E este é um ponto angustiantemente interessante.

A moral, o certo e o errado, já morreu há muito tempo, de forma que o que impera é quase uma luta pela sobrevivência muito próxima das lutas pré-históricas. Nota-se um esvaziamento de sentido em tudo, nos levando a acreditar que a saída para o mundo é justamente se atirar de cabeça nele e fazer parte dessa grande massa de luzes e falsas felicidades. É quase como as músicas "In the Flesh" do álbum do Pink Floyd "The Wall" contam: "Luzes! Efeitos Sonoros! Ação!", vamos fazer parte do show, brilhante e colorido, onde todos estão felizes e cantantes, porém, sem você perceber, tudo isso é uma grande montagem para que você fique admirado com o show todo e não perceba que por trás de tudo, a estrela do show, Pink, está no hotel, drogado e completamente desanimado, no sentido de "anima" = vida. A grande sacada do "The Wall" são os efeitos inseridos além das música. "Luzes! Efeitos! Ação!!!".

Mais que "obrigação", a palavra "responsabilidade" é a melhor para ilustrar o significado de "preguiça". Mas existe ainda uma saída para quem ler isso e, por acaso, se sentir culpado: somente é pecado quando a pessoa sabe que aquilo que ela está fazendo é um pecado.

Tarde demais, agora já sabemos. "Run Like Hell", já que falamos em "The Wall".

domingo, 15 de março de 2009

"Nem vá dormir como pedra e se esquecer o que foi feito de nós."

Enclausurado, comia biscoitos. Não porque aquilo era bom ou agradável mas era tudo o que tinha para fazer. Sentia cada parte do biscoito a cada mastigação: sal, açúcar, chocolate, farinha. Tudo bem industrial, assim como o resto de sua vida.

Uma vez que sua mente estava altamente ocupada por milhares de imagens que iam e vinham sem o seu controle, sequer sem que ele quisesse ou ainda se mexesse para tal, não havia nada que seu grande corpo imóvel pudesse fazer, a não ser os biscoitos.

As imagens eram impossíveis de mastigar, vinham como pedras frenéticas que ainda que se deixassem pegar não seria possível sequer roe-la. E também não havia nada mais que não fossem ele, as imagens e o biscoito. Ele era o centro de tudo aquilo ao seu redor, círculos dentro de círculos em um raio infinito com ele bem no meio.

Aliás, foi quando ele se deu conta disso que ele sossegou, "eu sou o umbigo do mundo", riu vitorioso e se sentou alí mesmo.

Esta lá até hoje, comendo os biscoitos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

As paredes têm ouvidos....

Dos posts ateriores (todos) e de tudo o mais:

Novamente tenho a impressão de que meu computador não está mais me aguentando com esse blog. Ultimamente nem ele tem passado por aqui! =)

sábado, 11 de outubro de 2008

Não existo

Dos posts anteriores e Eu Líricos malucos (nem tanto):


Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.


Álvaro de Campos

Certa vez me disseram, há muito tempo, a vida se vive ou para os outros ou para você mesmo. Na época já entendia isso, mas não conseguia formular o porquê.
Quero deixar bem claro que não estou falando de egoísmo ou o tal narcisísmo patológico. Pense na "metáfora da aeromoça": quando o avião está caindo, primeiro dve-se colocar sua prórpia máscara para poder então ajudar os outros que estão sem as máscaras de oxigênio. É bem isso, enquanto ou me sentir o "intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram" não coloco nem minha máscara nem coloco a máscara no outro. Os dois se perdem.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Joana, outra vez

Dos posts anteriores e da falta de grana que me faz ficar em casa lendo livros ao invés de "curtir a vida":

O fim de tarde lá fora nos galhos verdes. Os pombos ciscavam a terra solta. De quando em quando vinha até a sala de aula a brisa e o silêncio do pátio de recreio. Então tudo ficava mais leve, a voz da professora flutuava como uma bandeira branca.
- E día em diante ele e toda a família dele foram felizes. - Pausa - as árvores mexeram no quintal, era um dia de verão. - Escrevam em resumo essa história para a próxima aula.
Ainda mergulhadas no conto as crianças moviam-se lentamente, os olhos leves, as bocas satisfeitas.
- O que é que se consegue quando se fica feliz? sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
- Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
- Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
- Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
- Ser feliz é pra se conseguir o quê?
A professora enrubraceu - nunca se sabia dizer por que ela avermelhara. Notou toda a turma, mandou-a dispersar para o recreio.
O servente veio chamar a menina para o gabinete. A professora lá se achava:
- Sente-se... Brincou muito?
- Um pouco...
- Que é que você vai ser quando for grande?
- Não sei.
- Bem. Olhe, eu tive uma idéia - corou.
- Pegue um pedaço de papel, escreva essa pergunta que você me fez hoje e guarde-a durante muito tempo. Quando você fôr grande leia-a de novo. - Olhou-a - Quem sabe? Talvez um dia você mesma possa respondê-la de algum modo... - Perdeu o ar sério, corou. - Ou talvez isso não tenha importância e pelo menos você se divertirá com...
- Não.
- Não o quê? - Perguntou surpresa a professora.
- Não gosto de me divertir, disse Joana com orgulho.
A professora ficou novamente rosada:
- Bem, vá brincar.
Quando Joana estava à porta em dois pulos, a professora chamou-a de novo, dessa vez corada até o pescoço, os olhos baixos, remexendo papéis sobre a mesa:
- Você não achou esquisito... engraçado eu mandar você escrever a pergunta para guardar?
- Não, disse.
Voltou para o pátio.


"Perto do coração selvagem" - Clarice Lispector. Ed. José Olympio, 5a edição. 1974

Tom Zé - 1968

Dos posts anteriores, de "ode ao burguês" e do encarte do disco de Tom Zé, de 1968:

Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.
0 sorriso deve ser muito velho, apenas ganhou novas atribuições.
Hoje, industrializado, procurado, fotografado, caro (às vezes), o sorriso vende. Vende creme dental, passagens, analgésicos, fraldas, etc. E como a realidade sempre se confundiu com os gestos, a televisão prova diariamente, que ninguém mais pode ser infeliz.
Entretanto, quando os sorrisos descuidam, os noticiários mostram muita miséria.
Enfim, somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.(As vezes por outras coisas também).
É que o cordeiro, de Deus convive com os pecados do mundo. E até já ganhou uma condecoração.
Resta o catecismo, e nós todos perdidos.
Os inocentes ainda não descobriram que se conseguiu apaziguar Cristo com os previlégios. (Naturalmente Cristo não foi consultado).
Adormecemos em berço esplêndido e acordamos cremedentalizados, tergalizados, yêyêlizados, sambatizados e miss-ificados pela nossa própria máquina deteriorada de pensar.
"-Você é compositor de música "jovem" ou de música "Brasileira"?"
A alternativa é falsa para quem não aceita a juventude contraposta à brasilidade.. (Não interessa a conotação que emprestam à primeira palavra).
Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras.
Pois é que quando eu abri os olhos e vi, tive muito medo: pensei que todos iriam corar de vergonha, numa danação dilacerante.
Qual nada. A hipocrisia (é com z?) já havia atingido a indiferença divina da anestesia...
E assistindo a tudo da sacada dos palacetes, o espelho mentiroso de mil olhos de múmias embalsamadas, que procurava retratar-me como um delinqüente.
Aqui, nesta sobremesa de preto pastel recheado com versos musicados e venenosos, eu lhes devolvo a imagem.
Providenciem escudos, bandeiras, tranqüilizantes, anti-ácidos, antifiséticos e reguladores intestinais. Amem.

TOM ZÉ .

P.S.

Nobili, Bernardo, Corisco, João Araújo, Shapiro, Satoru, Gauss, Os Versáteis, Os Brazões, Guilherme Araújo, O Quartetão, Sandino e Cozzela, (todos de avental) fizeram este pastel comigo.

A sociedade vai ter uma dor de barriga moral
O mesmo

São, São Paulo

Dos posts anteriores e da burrice:

Vou simplesmente por uma música aqui hoje. Na verdade, uma crônica musicada como prefere chamar o autor.
http://www.zshare.net/audio/1899898780168545/

Letra: http://letras.terra.com.br/tom-ze/164147/

sábado, 13 de setembro de 2008

Lendas Brasileiras

Dos posts anteriores e do nada do sábado, que deveria ser um dia qualquer:

Valeu. Todas as lendas são assim:
Pra relembrar o que não aconteceu

Andei relendo Aldir Blanc. Infelizmente ouvir é um pouco mais difícil e, como no exemplo acima, mesmo com Guinga fazendo as vezes do violão, ler é um pouco melhor para a raiva do que ouvir.

Fantasia
"Olhando na quarta-feira as ruas vazias
Com os garis dando um jeito em nossa moral
Custei a compreender que fantasia
É um troço que o cara tira no carnaval
E usa nos outros dias por toda a vida
Dizendo: "Olá! Como vai?" e coisas assim
O nó da gravata apertando o pescoço
Olhando o fundo do poço e rindo de mim
Ria, rasguei a fantasia, ria
Queimei a garantia, ria
Tô solto por aí
Doido, eu danço de Pierrot, triste
Morrendo em meu amor, ria
Vendo você morrer de rir"

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sempre! Sempre "Blue in Green"

Dos posts anteriores, das náuseas e das flores:

Não sei o que se passa na cabeça de todos e principalmente na minha cabeça.
Desde muitos anos atrás, pois muitos são bem mais que minha vida toda, algumas pessoas já imaginavam no que o mundo iria se tornar. Reli "A flor e a náusea" do Drummond, assisti o "São Paulo S.A." do Person, ouvi o álbum do Tom Zé, de 1968, e tenha apenas uma impresão: me parece que pouca coisa mudou no quesito relações humanas e convívio social.
Falo isso porque moro em São Paulo mas preferiria viver em outro lugar bem diferente daqui. Pra mim essa cidade representa aquilo que sempre fui e tentava não ser. Aqui a solidão é de certa forma imposta pela diferença social, pelas distâncias e pelo medo. Vejo que tenho me tornado cada vez mais homem máquina, escrevo e falo com um PC, faço música e ouço música em meu quarto, sozinho, mesmo que muitos vão ouvir ao redor do planeta. Aplausos virtuais, nem um aperto de mão.
Não pretendo de forma alguma abraçar o mundo e ser abraçado por ele. É uma babaquice muito grande achar que algum dia isso irá acontecer de fato. Fisicamente impossível.
Quando o Drummond fala da flor que estava na rua, feia, sem cor, mas ainda sim, flor; crio um pouco de esperança de sair por aí colocando várias idéias em prática, vários vídeos em prática que sirvam para as pessoas ao meu redor, muita música em prática que alegre ou faça refletir quem estiver por perto. "Método Paulo Freire de relacionamento humano". O mundo não é um grande Orkut para que a gente tenha zigbilhões de amigos e todos ligados a todos. E sorridentes e de férias e com meus melhores amigos e tudo a mais.
Agora, ainda que haja a "flor", ela já foi pisada pelos medos, pelas distâncias e pelas diferenças sociais que são muito mais fortes.

"Blue in Green" é uma música do Miles Daves que enfeita muito bem este post.

domingo, 7 de setembro de 2008

Vida de TV

Dos posts anteriores, propagandas, panfletos, cartazes, luzes e muitas coisas mais:

Porque é que a vida tem que ser só alegria, felicidade e tudo maravilhoso?
Sério, qual o problema com a vida ser somente vida? Não preciso nem mais sair na rua para que fiquem autoritariamente me gritando "Seja feliz!", "Aproveite, aproveite!!", fascistas felizes e amedrontados do normal. Até nossa merda tem que ter cheiro bom. Não existem mais problemas no mundo, só alegria, alegria. "Ria e o mundo rirá com você. Chore e chorará sozinho".

Não estou sendo pessimista, muito menos negativo ou depressivo. Só gostaria que as coisas fossem normais e até naturais porque acho que estamos tão presos à alegria, alegria, que nem conseguimos arrumar os problemas pessoais mais idiotas. Mais do que ser proibido sofrer, é proibido se sentir sofredor. Não é bom estar errado, nem ao menos ter errado.
Bom, se é proibido sofrer e estar errado, então não tenho problemas, portanto está tudo bem, ainda que não esteja, ainda que não esteja, ainda que NÃO esteja!
E assim as pessoas ficam loucas.

O coração selvagem

Dos posts anteriores, que há um tempo ficaram parados:

Sempre tive uma atração por Joana. Desde que criei sua imagem olhando para as "galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer" não consigo mais parar de imaginar Joana quando não estou pensando em nada.
Ultimamente tenho me reencontrado com ela e, como sempre, me faz muito sentido conhecer sua história. Da última disse o seguinte:

"- Sim, eu sei, continuava Joana. A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto mas o que eu digo." - Perto do Coração Selvagem (1944), Clarice Lispector.

Certa vez, em Arjuna, a personagem principal é impedida de fazer as coisas pois as palavras a prendem. Mais ou menos isso o que as palavras fazem. Mesmo que não passem de um grande acordo entre as pessoas para que elas possam fazer o outro entender aquilo que estão sentindo. Contudo acho que os sentimentos se mostram em ações, mais do que palavras.